Descrição
Na Modernidade Colonial-Capitalista, vivemos um cotidiano de tempo cronometrado e cheio de planilhas; por isso, nos habituamos a uma linguagem apressada e funcional, insuficiente para dizer o que nos atravessa nos dias. Retalhos se escreve na suspensão dessa cadência produtivista. Samara de Souza Almeida dá forma ao que costuma permanecer informe, fazendo com que a potência do real toque um simbólico atento às sutilezas. Em fragmentos precisos, a autora costura o trivial ao inominável, compondo uma escrita que se reconhece cicatriz do vivido. Cada retalho opera como pequena escavação do corpo, da memória e do olhar que vacila. Ler Retalhos é aprender outro ritmo: um tempo que insiste sem relógio e uma linguagem que constrói alguma permanência em um mundo descartável.
Isadora Machado – Escritora
“Entre o pensamento e a expressão reside uma vida inteira”. A frase de Lou Reed nos leva a pensar sobre o tempo de elaboração envolvido em processos criativos. Com Retalhos, Samara Almeida mostra que, embora histórias mínimas nos soem, muitas vezes, simples exercícios de observação do mundo, subjaz a elas um longo processo de formação do olhar. A abertura a um tipo de mirada atenta aos acontecimentos fortuitos e às conexões impensadas. No caso específico de Samara, um olhar que aprendeu a surpreender e aproximar gente e bicho, corpo e objeto, como se a sensibilidade fosse uma grandeza intercambiável. Daí vem o prazer de acessar, no livro, pontos de vista tão líricos quanto irreverentes, um pensamento em mi menor que encontra expressão no caráter cronístico da escrita.
Paula Luersen – Escritora
Retalhos são metáforas para significantes que vão sendo costurados, criando imagens e paisagens físicas e psíquicas. Por meio de relatos curtos, triviais e poéticos, que têm na memória seus principais recursos, a obra vai reconstruindo o que parece ser a experiência de uma personagem em um ir-e-vir, tal como o movimento de corte e costura. Na escrita, na linguagem poética, a personagem cria uma foto-síntese do seu desejo: “descansar na simplicidade de colchas coloridas feitas de retalhos”.
É difícil definir se Retalhos é um livro de poesia, conto ou crônica. O que é, sim, muito simples de afirmar é que se trata de uma obra que te abraça. A escrita delicada de Samara de Souza Almeida tem o poder de fazer refletir sobre a poesia do cotidiano e é aquele tipo de livro que te faz terminar a página com um sorriso (às vezes, um sorriso triste) no rosto e um calorzinho no coração. A linguagem é outro elemento-chave aqui; neste livro as palavras ganham uma vida muito especial jogando com sentidos, mas também com a forma, trazendo, assim, mais uma camada de compreensão para o título. Retalhos te convida a escrever seus próprios sentidos a partir das palavras da autora.
Lívia Santos de Souza
Doutora em Literaturas Hispânicas







